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Coluna do HeródotoEntrevistas

Jornalismo e o Caminho do meio

By 12 de agosto de 2021 No Comments

Entrevista para a revista FILOSOFIA, da Editora Escala, número 125, conduzida pelo jornalista Edgard Melo

– Depois muitos anos lecionando história, como surgiu a sua paixão pelo jornalismo e por quais motivos?
Aprendi no curso de história que o jornalismo também era fonte de pesquisa. Portanto, conhecer o funcionamento da imprensa era importante para pesquisa histórica. Isto me fez aproximar do jornalismo. Nas aulas sempre recomendava que os alunos lessem os jornais. Lembrava que se a gente não entendesse o que estava acontecendo hoje, seria mais difícil entender o passado. E que a história era capaz de buscar a origem e contextualizar tudo o que influenciava o nosso dia a dia. Aprender a ler jornal, fazer análise, ligações com o passado fazia parte do meu trabalho como professor.

– De que forma o jornalista pode lidar com sua utopia pessoal no dia a dia profissional?
A utopia do jornalista é apurar corretamente os fatos, analisá-los, buscar o conteúdo de interesse público e a prática da isenção diária. É dar uma contribuição para a democracia e o desenvolvimento da sociedade. A utopia é despertar o espírito crítico no público e incentivá-lo a ter sua própria opinião sobre os assuntos de interesse geral. É acreditar que é possível ajudar a mudar a sociedade com mais informação e notícia.

– O engajamento ainda tem espaço na mídia?
Sim, desde que seja transparente. É preciso que o público saiba o que é opinativo, interpretativo ou informativo. Há um compromisso ético de se apurar corretamente as noticias, buscar isenção e ética, que são instáveis uma vez que estão relacionadas com o contexto histórico. É preciso que haja diferentes opiniões sobre todos os assuntos e que o público tenha acesso, e, hoje, com as mídias sociais possa debater abertamente com os emissores jornalistas. Não se publica mais nada impunemente desde o desenvolvimento da internet, o que, na minha opinião, colabora para melhorar a qualidade do jornalismo e aprofunda a democracia.

– Quais são suas principais influências no que se refere a construção de um pensamento teórico e prático acerca do jornalismo?
O jornalista está submetido ao contexto social como qualquer outro profissional. Não está no topo da árvore descrevendo o que vê. Está no meio da floresta dos acontecimentos sociais e é influenciado decisivamente por eles. Por isso sua conduta deve estar focada na busca da isenção e respeitar os limites éticos que impõe. O prático e o teórico são inseparáveis. São como um par de rodas de uma carroça, sem uma delas, a carroça não anda. Ou como as duas asas do pássaro. Não há como separar uma coisa de outra, fazem parte do mesmo organismo.

– Quais os principais desafios do Jornalismo atualmente no mundo e quais as principais barreiras para a produção de um jornalismo crítico?
A principal barreira para a produção de um jornalismo crítico é o despreparo, o baixo nível intelectual, e o desconhecimento da importância social que tem o jornalismo e seu conteúdo ético. Não é mais a empresa onde trabalha. Com o advento das mídias sociais acabou o oligopólio das plataformas de comunicação. Há espaço para todos. O que garante a audiência para uns é sua credibilidade e a relevância do que publica. O jornalismo transbordou do academicismo para a popularidade. Isto permite que qualquer pessoa possa ser emissora de informação, e se souber transformar informação em notícia, faz jornalismo.

– O estudo do Direito facilitou em seu processo de compreensão de perfis, problemas sociais e do próprio processo político e democrático? De que forma isso ocorreu?
Para a prática do jornalismo os diplomas ajudam pouco. O que vale mesmo é a busca diária do conhecimento, estudo de assuntos relevantes e a prática de traduzir o erudito e o técnico em uma linguagem que o público alvo possa entender. Fazer um curso de direito , como eu fiz, ajuda a entender os mecanismos jurídicos que a sociedade cria e quer vê-los aplicados.

– Dentre os gêneros literários de sua preferência, o senhor inclui a filosofia? Quais seus escritores preferidos e qual a influência direta dos temas e abordagens filosóficas em sua formação?
Tenho lido filosofia desde comecei a estudar história. Acabei de ler o livro da Anne Cheng, História do Pensamento Chinês, da Vozes. Tenho na minha frente um exemplar do Voltaire, Lições a Um Jornalista. Gosto do Sêneca, Aprendendo a Viver, The Wisdom of the Buddha, New Horizon, e por aí vai….

– Leonardo Boff disse que o novo Papa “deveria ser um homem profundamente espiritual e aberto a todos os caminhos religiosos”. Como as religiões podem conviver melhor e o homem assimilar concretamente essa experiência?
Primeiro as religiões devem se abrir. Permitir que outras pessoas conheçam na teoria e na prática sua essência. Portanto o primeiro passo a acabar com o preconceito contra qualquer outra religião. O segundo passo é proporcionar encontros inter religiosos em todas as oportunidades possíveis, desde uma cerimônia de formatura até um seminário na universidade. Fui a um encontro na ONU sobre o FIB- Felicidade Interna Bruta- e surpreendeu-me ver no plenário líderes religiosos de todos os credos. Foi a primeira vez que senti de fato o que era praticar a tolerância religiosa e sua importância para a transformação do mundo.

– Por que as pessoas se apegam mais à religião em momentos difíceis? O que é fé para o Budismo?
As pessoas se apegam mais a religião porque não encontram no dia a dia remédio para os seus males psicológicos e materiais. Há sempre o medo da morte e as religiões oferecem respostas que contentam os fiéis. No budismo, do qual sou praticante, não há fé como se entende no mundo ocidental. Há disciplina e a prática da dyana (meditação) e a prajna( sabedoria) . Há o entendimento que a vida é composta de sofrimento ( dukka) e que a forma de mudar isso é entender o discurso do Buda sobre as Quatro Nobres Verdades e o caminho óctuplo.

– A filosofia budista ganhou muito espaço no Brasil, principalmente em grandes centros como São Paulo, por que motivo?
Historicamente foram os imigrantes japoneses que vieram para São Paulo que trouxeram o primeiro monge budista no início do século 20. Depois vieram os missionários budistas atraídos pela colônia de origem nipônica em São Paulo, mais de um milhão de descendentes. Eu mesmo tive como primeiro mestre o missionário Ryohan Shingu, da escola do budismo Soto Zen. Mais recentemente, escolas chinesas e tibetanas se estabeleceram na cidade graças ao interesse do público paulistano. É bom lembrar que o Chan, ou Zen teve uma forte ligação com o movimento hippie nos anos 60 e 70.

– A presença de filósofos comentando temas sociais e políticos na mídia impressa, na televisão, na rádio e na Internet cresceu bastante nos últimos anos, como o senhor avalia tal participação?
É um grande avanço. A filosofia sai do mundo acadêmico e se encontra com o público através da comunicação. Deixa de ser um núcleo fechado, elitizado, isolado para difundir conhecimento para a sociedade. Eu mesmo, no Jornal da Record News, onde trabalho, sempre convido filósofos. Um deles tem a minha preferência pelo seu conhecimento e o jeito fácil de falar que é o Renato Janine Ribeiro.Várias vezes entrevistei o Edgard Morin na TV Cultura. E muitos outros.- Os protestos nas ruas realizados nos últimos anos mostraram também manifestações de intolerância social e política. Como vê isso?
São manifestações de uma democracia jovem, adolescente, que nasceu em 1988. Há excessos, mas são manifestações garantidas pela constituição, momento que muitos aproveitam para apoiar as causas que acham justas.

– Gostaria de voltar à universidade para se dedicar à história?
A história não sai do meu dia a dia de jornalista. Acabei de ler O Futuro do Capitalismo do casal Tofler. Estou anotando novamente A Evolução do Capitalismo, do Maurice Dobb, e tenho outros na mira. Estou comprometido com o jornalismo, para voltar a dar aulas de história teria que mudar totalmente minha vida.

– Qual o maior problema do ensino de história nas escolas para crianças e adolescentes?
O problema, ou melhor, a solução é o professor. Ele precisa conquistar o coração e a mente da moçada, se não não ensina nem história, nem nenhuma outra disciplina. Não há livro didático, internet, whatsapp, filminho, que substitua o bom professor.